sexta-feira, 4 de abril de 2014

Por que não sou arminiano?


Por pr. Fabiano Antônio Ferreira, D.D.

O propósito destes dois breves artigos é justificar porque não adoto o sistema teológico que ficou conhecido na história da igreja cristã como arminianismo, nome devido ao seu defensor, Tiago Armínio (1560-1609), em contraposição ao sistema oposto que foi cognominado de calvinismo, em homenagem ao grande reformador francês João Calvino (1509-1564). O presente artigo revelará para o leitor a primeira razão.

O sistema arminiano foi apresentado de forma sistemática à igreja holandesa em 1610, por discípulos de Tiago Armínio, na forma de cinco pontos que sintetizavam os ensinos do professor holandês e alteravam os ensinos dos reformadores, diferenciando deles não apenas em termos de ênfase, mas de conteúdo. Os cinco pontos do arminianismo apresentados na Remonstrance(Representação) são os seguintes: (1) Livre-Arbítrio (ou capacidade humana: o homem, mesmo caído, ainda tem condições de atender por si mesmo ao chamado do evangelho, vindo por seus próprios recursos a arrepender-se e exercer a fé; para os arminianos não existe morte espiritual em termos absolutos; (2) Eleição Condicional (Deus não teria marcado ninguém para salvar-se ou perder-se, mas a eleição antes da fundação do mundo seria baseada na presciência divina, que elegeria aqueles que de antemão previu que iriam arrepender-se e crer, sendo, portanto, o conjunto dos eleitos aberto, sem garantir a segurança de qualquer pessoa antes do encerramento de sua história; (3) Expiação Geral ou Ilimitada (Jesus Cristo não teria morrido por pessoas específicas, mas sim por toda a humanidade, apenas possibilitando a salvação de qualquer pessoa que, dentro da história, creia em sua morte expiatória, embora isso não seja suficiente para garantir-lhe a absoluta segurança, uma vez que a salvação depende da perseverança na fé, e não se sabe com certeza quem irá perseverar até o fim; (4) Graça Resistível (Na concepção arminiana, a graça de Deus pode ser resistida no ato da salvação e, quando o pecador aquiesce a ela, até mesmo depois de "salvo", o homem pode resistir a Deus de modo a vir a perder-se total e finalmente); (5) Insegurança da Salvação (Ninguém pode garantir que os que são verdadeiramente regenerados vão perseverar até o fim, ou seja, uma pessoa que hoje se presume salva, amanhã poderá vir a perder sua salvação). É bom lembrar que, do sistema arminiano formulado pelos remonstrantes, Armínio discordaria do 5o ponto, pois, apesar de toda a sua incapacidade de entender o que os reformadores ensinaram, jamais duvidou da Perseverança dos Santos.

Em 1618, um concílio internacional constituído de 84 renomados eruditos reformados reuniu-se na cidade de Dort, na Holanda, para analisar e responder aos remonstrantes, formulando, em 1619, após sete meses de discussões em 154 seções, os importantes Cânones de Dort, dispostos em cinco capítulos cujos títulos ficaram sendo conhecidos como os Cinco Pontos do Calvinismo, em homenagem ao grande reformador João Calvino. Esses cinco pontos, pois, são a síntese do ensino reformado, não apenas subscrito por João Calvino, mas por todas as confissões de fé históricas e catecismos reformados, a saber, Confissão de Fé dos Países Baixos, Catecismo de Heildelberg, Segunda Confissão Helvética e Confissão de Fé de Westminster, e, como bem ficou demonstrado nos Cânones de Dort, refletem o verdadeiro ensino das Escrituras reafirmado pelos reformadores e negado pelos remonstrantes.

Os Cinco Pontos do Calvinismo são os seguintes: (1) Depravação Total (Os homens não regenerados, após a queda, são totalmente incapazes de escolher o bem quanto a questões espirituais, visto que estão mortos em delitos e pecados, sendo habilitados apenas por um milagre de ressurreição espiritual, que ocorre quando da regeneração, veja Ef 2:1-10); (2) Eleição Incondicional(Deus, antes da fundação do mundo, em seu propósito eterno e soberano, segundo o conselho da sua vontade, em amor elegeu alguns pecadores para a salvação, independente de quaisquer méritos que neles se observassem, nem tampouco previsão de arrependimento e fé, veja Ef 1.3-12; 2Ts 2.13; Jo 6.37, 39, 6.65; At 13.48); (3) Expiação Limitada (Ao enviar seu Filho para ser morto por causa dos pecados dos homens, Deus, na verdade, tinha em mente propiciar o único meio para que seus eleitos pudessem ser salvos, o que lhes garante eterna salvação, enquanto a expiação arminiana é universal e, contudo, não garante a salvação de ninguém em termos absolutos; a melhor demonstração desta verdade foi feita por John Owen no livro Por quem Cristo morreu?, PES, e eu o aconselho a ler a discussão detalhada ali, inclusive as respostas às objeções a este ensino lógico e claro das Escrituras; Mc 10.45; Tt 2.14; Hb 9.28; At 20.28; Ef 5.25; Jo 17.6, 9; Hb 9.12; Ap 5.9); (4) Graça Irresistível (Os eleitos, dentro do tempo, serão chamados por Deus para sair de suas sepulturas espirituais, isto de um modo irresistível, no ato da aplicação da redenção pelo Espírito Santo (regeneração), uma vez que esta redenção eterna foi-lhes conquistada objetivamente por Deus Filho. O apóstolo Paulo diz Rm 8.28-30: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. 29 Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou." (Veja também Jo 6.37, 39, 65; Tt 3.3-6; Ef 2.1-10); (5) Perseverança dos Santos (A salvação do eleito é eterna, uma vez que a mesma graça de Deus que os salvou agirá eficazmente em suas vidas, de maneira que não poderão cair total e finalmente, pois justificação, regeneração e adoção são irreversíveis. É verdadeira a afirmação da Escritura que "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1). Veja também Jo 10.28-30: "25 Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. 26 Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. 27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. 28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29 Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. 30 Eu e o Pai somos um.".

Pois bem, ao analisar o que os reformadores ensinaram fundamentalmente, cujo resumo são os Cinco Pontos do Calvinismo, e constatar a total consistência desses ensinos com as Escrituras, não pude fazer outra opção e o meu pêndulo teológico se inclinou irresistivelmente para o Calvinismo.

No dizer de Paulo Anglada, em Calvinismo - As Antigas Doutrinas da Graça, Editora Os Puritanos, SP, 1996, "As antigas doutrinas da graça são um sistema lógico, coerente e harmonioso. Os assim chamados pontos do calvinismo revelam como é possível a redenção eterna de pessoas pecadoras totalmente depravadas, em conseqüência do pecado original, pelo Deus Triúno: o Pai elege incondicionalmente, o Filho redime objetivamente os eleitos, e o Espírito Santo aplica eficazmente a redenção ao coração daqueles por quem Cristo morreu". Por fim, Anglada diz: "A doutrina calvinista da perseverança dos santos é a conclusão inevitável e bíblica da obra da redenção. O homem, em seu estado natural, está totalmente depravado - isto é, teve suas faculdades espirituais completamente corrompidas, tornando-se inimigo de Deus, morto nos seus delitos e pecados. Deus o Pai movido pelo seu infinito amor escolheu, antes da fundação do mundo, alguns dentre estes para manifestar a sua misericórdia, elegendo-os para ser santos e irrepreensíveis. Vindo a plenitude dos tempos, o Senhor Jesus Se fez carne, cumpriu a lei e morreu na cruz pelos eleitos de Deus, expiando objetivamente a culpa que lhes fora imputada pelo pecado de Adão. Na época própria, aprouve a Deus chamá-los eficazmente, aplicando soberanamente a Sua graça especial para a salvação, independentemente de qualquer mérito da parte deles. Que absurdo imaginar que, depois de tudo isso, o redimido possa apartar-se totalmente da graça de Deus e perder a salvação!"

Assim, como estou convencido de que esses dois sistemas são os dois pólos em que podemos nos situar teologicamente, de modo que não se pode ser lógica, coerente e biblicamente, arminiano e calvinista, ou uma mistura "calviminiana" que contenha uma porcentagem de um e de outro sistema ao mesmo tempo, segue-se que tive de optar entre um e outro. Ou você é arminiano ou você é calvinista, e não uma mistura desses dois sistemas mutuamente exclusivos. Optei, como não poderia deixar de ser, pelo calvinismo, uma vez que ele reflete o sistema ensinado pelos apóstolos e pelo próprio Jesus. Não me envergonho de estar na companhia dos mais nobres santos da história da igreja, como Agostinho, Lutero, Calvino, John Knox, John Bunyan, John Gill, John Owen, George Whitefield, Jonathan Edwards, Spurgeon e outros. Estou em boa companhia, você não acha?

Agora, quando se fala em arminianismo, o sistema da incerteza, da dúvida, do pessimismo, do medo, da insegurança, só quem sofre dos mesmos problemas que seu articulador é que pode abraça-lo. Só pode ser calvinista quem tem fé suficiente para submeter-se à soberania de Deus e pode aceitar o que as Escrituras ensinam claramente, só os eleitos convictos de sua posição é que podem ser calvinistas.

Por séculos, os arminianos conviveram com seu sistema sem leva-lo aos seus extremos lógicos e, por conseguinte, sem revelar de fato a sua verdadeira face. Os cinco pontos que enumeramos são apenas a ponta do iceberg do arminianismo. Você quer saber o que realmente estava escondido no sistema arminiano e que hoje declaradamente está sendo defendido pelos arminianos que ousaram levar o arminianismo aos seus extremos lógicos? Uma frase só:Open theism (Teísmo aberto)! Sabe o que é isto? No próximo artigo eu explico. Esta será a segunda razão porque não sou arminiano. A ponta de seu iceberg já me afastou dele, e o corpo do iceberg, por certo, me manterá definitivamente no outro pólo, no porto seguro do calvinismo, em excelente companhia. Até o próximo número de Pregação Hoje.

2ª Parte

Neste segundo artigo, exponho a segunda razão que me distanciou definitivamente do arminianismo. O fato é que Deus, em todas as épocas, "precisou" de homens que nutriam uma correta perspectiva dele, de si mesmos e de seus semelhantes. Aliás, este é o alvo supremo da vida cristã e a meta da verdadeira espiritualidade. Homens que viam a Deus por uma correta perspectiva teológica, enxergando-o pela ótica da Escritura: um Deus infinito, soberano, onipotente, onisciente, onipresente, que rege o seu mundo criado com sabedoria infinita e que dispõe de meios eficazes de antemão planejados para levar a história ao fim que ele mesmo planejou, agindo sempre segundo o conselho de sua santa vontade.

Homens que se vejam como o grande apóstolo Paulo - e nesta santa fileira podemos colocar Lutero, Calvino, Jonathan Edwards, Matthew Poole, John Owen, John Gill, C. H. Spurgeon, D. M. Lloyd-Jones, Gerstner, R. C. Sproul, etc., e quem sabe eu e você, a história dirá -, que se considerava o mínimo entre os santos, o principal dos pecadores, exemplo daqueles que haveriam de crer em Deus, um verdadeiro referencial para os eleitos de Deus contemporâneos seus e seus sucessores. Que também via os homens por uma correta perspectiva espiritual, pela ótica da doutrina acerca do homem revelada na Escritura.

Para o apóstolo Paulo, os homens eram salvos ou não. Os salvos eram os eleitos de Deus, predestinados para filhos de adoção por Jesus Cristo, chamados eficazmente pelo evangelho, ressuscitados de suas sepulturas espirituais pela ação miraculosa do Deus triúno para tomarem assento nos lugares celestiais em Cristo, marcados para entrar na história humana como ovelhas do Pai e do Filho, resgatados pelo sacrifício expiatório, propiciatório e substitutivo do Filho na cruz do Calvário e regenerados pelo Espírito Santo em sua vocação eficaz e irresistível, e selados pelo mesmo Espírito para o dia da redenção. Sua mensagem era: Deus salva pecadores!

Os outros homens, segundo seu evangelho, eram eleitos ou reprovados, o que o motivava a pregar intensamente o evangelho a fim de ser o instrumento de Deus para a descoberta dos eleitos, que Deus soberanamente ia colocando em seu caminho, dentre os quais podemos citar a vendedora de púrpura Lídia e o carcereiro de Filipos.

Paulo era grato a Deus por ser colaborador de Deus e cooperador de Deus em favor da Senhora Eleita, a Igreja. Era humilde, como não poderia deixar de ser, por ter sido escolhido por Deus para fazer um grande serviço no seu reino, que ele sempre esteve consciente de que não era merecedor. Alegre ele dizia: "Mas Deus me escolheu desde o ventre" e em outro lugar, "Ele nos elegeu antes da fundação do mundo".

Diferentemente desta visão salutar da Escritura, ilustrada com um máximo exemplo, o do apóstolo Paulo, está a visão de mundo arminiana.

Até pouco tempo, o arminianismo, desde a sua concepção em contraposição ao calvinismo, conviveu com suas inconsistências lógicas internas, quando foi definitivamente levado aos seus extremos lógicos [2], através de seus proponentes mais aferrados no cenário evangélico canadense e americano, liderados por Clark Pinnock [3] - e já há representantes tupiniquins [4] do arminianismo levado aos seus extremos nesta terra brasili!-, e chegou a ponto de ver Deus com a imagem inversa daquela que é descrita na Escritura, esvaziando todos os seus atributos e criando um "Deus" finito e impotente (ou deus? ou um ídolo?), que nem ao menos sabe o que poderá acontecer no futuro, tendo em vista que há um ser no universo chamado homem, livre, dotado de um "livre-arbítrio", imprevisível, com ações não causadas e que é uma ameaça ao cumprimento de Suas predições na Escritura, por não permitir que Deus preveja nenhuma de suas ações futuras. Na visão arminiana extremada, que é totalmente humanista e antibíblica, assumindo uma postura quase liberal (no sentido acadêmico e histórico do termo), Deus é rebaixado quase à posição do próprio homem caído, ou talvez um pouco abaixo, e o homem sobe a uma estatura quase do Deus da Bíblia. Esta visão, obviamente, não passa de produto da imaginação do homem caído em seu projeto de autonomismo apóstata, inspirado, como não poderia deixar de ser, pelo arqui-inimigo de Deus, que foi o primeiro a desejar essa autonomia rebelde. O autonomismo apóstata só poderia levar à desconstrução [5] da teologia, como já era previsto. De fato, o arminianismo, que enfatiza exageradamente o autonomismo, é a prova mais completa da depravação total do ser humano!

Quando o arminianismo extremado é assumido como visão de mundo e fornece os pressupostos para a análise da Escritura, o homem passa a ocupar o centro das atenções e Deus sai para segundo ou terceiro plano. Os superpoderes que os homens passam a ter são a evidência disso, pois até mesmo os homens não-regenerados que a Bíblia ensina estar mortos em delitos e pecados passam a não mais ser vistos assim, mas são vistos como capazes de ascender aos céus, se quiserem, e até mesmo sair de lá, caso entrem. Isso tudo nada mais é do que aquela antiga heresia que ficou sendo conhecida na história da igreja como pelagianismo [6] ou o seu alomorfe (outra forma), o semi-pelagianismo. De acordo com a visão arminiana, nem Deus pode deter um homem assim tão poderoso, mas tem de ficar sempre de plantão para poder contornar os problemas que o homem cria no universo, que podem até frustrar os seus planos, e forçosamente Ele tem de ficar costurando a história até ver se ele consegue fazer aquilo que antigamente predisse na Escritura, e talvez "impensadamente", por "não saber" do que o homem era capaz. Na visão da Escritura, todos os problemas que os homens causaram e irão causar, sob insinuação do arqui-inimigo de Deus, são conhecidos exaustivamente por Deus e jamais o pegaram ou o pegarão de surpresa, pois Ele é onisciente e sabe para onde a história está indo e jamais perdeu ou perderá o controle de tudo o que acontece no mundo criado, como supõem os arminianos extremados. Mais ainda, a doutrina bíblica da providência divina ensina-nos que tudo está decretado pelo Deus Todo-Poderoso, de modo que não existe algo que ocorra sem ser produto de seu decreto eterno.

Por outro lado, no arraial evangélico, essa visão arminiana constrói os super-pastores, os verdadeiros todo-poderosos que ameaçam tomar o lugar de Deus, que determinam, decretam, chamam à realidade as coisas que não são, abençoam, profetizam prosperidade e etc. Em suma, fazem coisas que antigamente só o Deus da Bíblia podia fazer. Quem sofre mais nisso tudo são as ovelhas fiéis e sinceras que são manipuladas por líderes com esse tipo de orientação arminiana extremada, que oferecem para elas ao invés de eleição e segurança eterna e absoluta, uma posição de candidatas ao reino dos céus, ameaçando-as por qualquer motivo, até os mais frívolos e banais, de perderem sua salvação. O arminianismo é um terrorismo espiritual pior do que o encabeçado por Osama bin Laden! É com tristeza profunda que eu constato e registro esta realidade.

Ao ler a biografia de Armínio e suas obras completas, desconfio de sua insanidade. Desconfio também da insanidade do sistema "teológico" que seus discípulos criaram, uma monstruosidade humanista resultante do autonomismo apóstata, que solapa a salutar visão da Escritura que, realmente, desde que humildemente abraçada, pode produzir instrumentos realmente poderosos nas mãos de Deus. A proposta teológica arminiana prefigurava embrionariamente a desconstrução da genuína teologia bíblica e, forçosamente, não poderia fazer outra coisa. Muito embora seus defensores hoje digam que não apoiam o desconstrucionismo, na prática, porém, eles estão desconstruindo toda a sã doutrina. Deus já se encontra desconstruído em seus atributos e, ao que tudo indica, a própria Trindade não poderá escapar das propostas insanas dos arminianos extremados.

Em contrapartida, para você recuperar o fôlego, a teologia bíblica genuína já invadiu as vidas de muitos pecadores na história e produziu santos na Igreja do Deus vivo, a ponto de um desses santos, Jonathan Edwards, poder soar o alerta em sua congregação, mostrando vividamente os perigos que correm os"Pecadores nas mãos de um Deus irado". (Com ar de zombaria, de repente, os liberais diriam que isso foi um dos "desatinos" do período pré-iluminista!). Ao que me parece, e também creio que a R. C. Sproul, a teologia arminiana e seu parceiro muito chegado, o liberalismo, refletem nada mais nada menos do que a cena de um "Deus (ou deus) nas mãos de pecadores irados!".

Que Deus nos guarde das idéias perniciosas desses pecadores irados, que estão imergindo muitos cristãos sinceros num verdadeiro buraco negro e a fé cristã num lago de areia movediça. Coisas estranhas estão surgindo por aí afora, como o teísmo libertário, a teologia do processo, a teologia da abertura de Deus (que implica num lógico e total esvaziamento da onisciência de Deus, a partir do qual Deus passa a não conhecer o futuro), a emergência veloz de um neo-gnosticismo gospel e a última novidade - digo última por que eu não sou onisciente como os arminianos extremados, graças a Deus, e não sei o que eles estão aprontando ao redor deste mundo - é que eles já estão trabalhando para esvaziar o inferno [7]. Era só o que faltava. Será que eles, no fundo, não estão é com medo de ir para lá? Claro, pelo sistema arminiano extremado, ninguém pode ter certeza absoluta de salvação e de que não vai parar lá. Então, dizem eles agora, vamos construir um túnel "teológico" para resgatar aquelas pobres almas que supõem os adversários que estejam lá (bem baixinho: os calvinistas!) e comecemos a empreitada de diminuir sua temperatura, pois pode ser que paremos lá, ninguém sabe o futuro, nem Deus nem nós! Para os liberais a tarefa foi fácil, bastando desconstruir o inferno e pronto: problema resolvido!

O arminianismo extremado, querido leitor, é, na realidade, a "teologia" da incerteza, da insegurança e da desesperança: um buraco negro de areia movediça. Fortalece o homem e enfraquece ou quase extingue Deus. É antibíblico desde os seus fundamentos e inconsistente com a Escritura. Saiamos de sua região inóspita correndo, aborrecendo até a roupa manchada de suas nódoas miasmáticas e sigamos em direção aos pastos verdejantes da sã doutrina da Escritura, onde ouvimos a voz doce e suave do Bom Pastor, encontramos garantia de vida eterna, como também paz e segurança absolutas por estarmos seguros nas mãos Daquele de quem ninguém pode arrebatar suas ovelhas, porque Ele é maior do que todos e do que tudo. Nas mãos desse Deus verdadeiro, não nas de uma deidade desconstruída por pecadores irados, você pode ser realmente uma bênção!

Reafirmando os ideais da Reforma:

Sola Scriptura
Sola Gratia
Sola Fide
Solus Christue
Soli Deo Gloria
_____________________
Notas:

[1] O Colégio dos Pastores na Obra da Restauração de Tudo tem sua sede na Rua Guaiuba, 231, Acari, Rio de Janeiro. Todas as últimas semanas de cada mês, os evangelistas e pastores se reúnem para Estudos Bíblicos e Teológicos Avançados e aulas de línguas, com o objetivo de manter os líderes na Obra da Restauração de Tudo bem informados sobre as principais tendências teológicas no evangelicalismo contemporâneo e para reciclagem e atualização nas disciplinas de Hermenêutica, Exegese do AT e do NT, Teologia Bíblica, Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Línguas Originais da Bíblia, Lingüística, Inglês e Língua Portuguesa.

[2] Observe que nem todos os arminianos levam o arminianismo aos seus desdobramentos extremos, ficando com a forma mais branda não extremada do mesmo, não trabalhando suas inconsistências internas. Quando o arminianismo começou a resolver suas inconsistências lógicas internas, ele revestiu a forma extremada defendida por Clark Pinnock e seus confrades arminianos, no livro Grace of God and the Will of Man, que apresenta a verdadeira face do arminianismo.

[3] Caso o leitor queira inteirar-se mais profundamente desses assuntos que abordarei de passagem neste artigo, leia os seguintes livros de Clark Pinnock (autor ou organizador), Grace of God and the Will of Man, The Opennes of God, A Wideness in God's Mercy, Most Moved Mover. Antes, eu o aconselho a vacinar-se com as seguintes respostas dadas a esses escritos arminianos extremados: R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna (Editora Cultura Cristã); Paulo Anglada, Calvinismo: As Antigas Doutrinas da Graça (Editora Puritanos); Os Cânones de Dort (Editora Cultura Cristã); Thomas R. Schreiner e Bruce A. Ware, Still Sovereign: Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace; Bruce A. Ware, God's Lesser Glory: The Diminished God of Open Theism. Todas essas obras podem ser adquiridas no site www.amazon.com.

[4] Ouça os 2 CD's de Ricardo Gondim sobre Predestinação e o leitor, após ter lido as obras de Clarck Pinnock citadas na nota anterior, verá que Gondim defende os pontos de vista do "open theism" (teísmo aberto, ou teísmo libertário, ou teologia da abertura de Deus), ainda que de um modo velado e disfarçado, pois não cita as fontes sobre as quais se apóia pesadamente. Contudo, é fácil perceber que os pressupostos nada ortodoxos de Gondim nesses CD's derivam dos teístas libertários, com os quais ele, como arminiano, se simpatiza, além de ser um passo à frente nos rasgos de liberalismo que demonstrou em É Proibido, o que a Bíblia permite e a Igreja proíbe. Mas o leitor deve seguir o seguinte conselho: ouça os CD's de Gondim assentado e bem apoiado, pois neles Gondim consegue a façanha de reverter a história, qualificando como ortodoxos Pelágio, Armínio e os arminianos em geral, até os do teísmo libertário, dos quais ele é um dos representantes no Brasil, e condenando e qualificando como hereges Agostinho, Calvino e todos os reformados que defendem, como diz ele, o predestinismo. Está pasmado? Vá conferir e depois me responda: Será Gondim o alter-ego ("outro eu") de Pinnock ou de Richard Rice no Brasil? O tempo nos dirá. Penso que quem tem visto com tão bons olhos a teologia de Charles Finney, como é o caso de Gondim, só pode usar o Soli Deo Gloria dos reformadores no final de seus artigos como um disfarce. Cuidado, leitor!

[5] Segundo Ricardo Quadros Gouvêa em Fides Reformata 2/1, p. 64: "O desconstrucionismo é uma prática de leitura baseada em uma hermenêutica de suspeita em que o texto é entendido a partir da sua auto-desintegração teórica. A desconstrução implica na subversão, na descentralização de qualquer origem perceptível de discursos autoritativos associados a 'metanarrativas', isto é, macroestruturas teóricas como, por exemplo, sistemas filosóficos e teológicos".

[6] Pelagianismo - a essência do ensino de Pelágio era sua idéia errônea de que o arbítrio, mesmo no estado caído dos homens, era essencialmente livre da corrupção do pecado e possuía a capacidade em si mesmo de escolher e realizar boas obras, conforme R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, p.23. Também, segundo define este mesmo autor à p. 256, "o semipelagianismo foi uma teologia de acomodação surgida no séc. 5, que ensinava que a graça de Deus não era necessária para o livre-arbítrio começar a agir de modo correto."

[7] PINNOCK, Clark H., A Wideness in God's Mercy.

Sobre o autor: é ministro na Obra da Restauração de Tudo e pastoreia a Igreja em Engenheiro Pedreira, no Rio de Janeiro. É bacharel e licenciado em matemática, especialista em línguas originais da Bíblia (hebraico, aramaico e grego), doutor em divindade pela Faculdade de Ciências Filosóficas e Teológicas do Rio de Janeiro, bacharelando em Português-Hebraico pela UFRJ, tradutor de inglês, hebraico e espanhol e faz mestrado em Antigo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo. Leciona Teologia Bíblica, Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Hermenêutica, Exegese, Línguas Originais da Bíblia, Língua Portuguesa e Inglês no Colégio dos Pastores na Obra da Restauração de Tudo, no Rio de Janeiro. É 2o. vice-presidente da Academia Evangélica de Letras do Grande Rio.


A respeito de JULGAR. É correto julgar?


Por Mateus de Souza

Princípio: TODA a Bíblia é inspirada por Deus.

Nós estamos a todo momento fazendo julgamentos. "Será que tal comida faz bem para saúde"? "Será que fulano seria uma companhia correta para mim"? Julgar é algo que faz parte da vida do ser humano.
No contexto da Igreja, seria correto julgar os irmãos? Seria correto julgar os líderes? Seria correto julgar as coisas ensinadas, as supostas "revelações"?


Jesus, no Sermão do Monte, disse:
"Não julgueis, para que não sejais julgados.Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão." - Mateus 7:1-5


Podemos perceber que Cristo é totalmente contra o julgamento HIPÓCRITA. Isto é, fazer o mesmo e julgar a outra pessoa como errada, exercer um forte juízo e não olhar para si. Mas será que Cristo é TOTALMENTE contra qualquer tipo de julgamento? Será que não podemos julgar de maneira alguma? Vejamos:

"Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça." - João 7:24. Como podemos ver, DEVEMOS julgar segundo a reta justiça. Portanto, o argumento de que NUNCA devemos julgar está equivocado.

O que seria julgar segundo a reta justiça? Em outro ensinamento, Cristo disse que se alguém pecasse contra nós, e se arrependesse, deveríamos perdoar sempre, sem limites. E se alguém pecasse contra nós, e não se arrependesse, mesmo com as testemunhas, daí então a Igreja deveria considerá-lo como um não cristão. Essas coisas estão em Mateus 18.

Prosseguindo, o apóstolo Paulo ensinou que, ao irmão que cair em pecado, devemos primeiramente estender as nossas mãos e ajudá-lo (Gálatas 6:1-2). Se, todavia, o irmão, depois de cair em pecado, começasse a VIVER no pecado, a Igreja deveria julgá-lo e colocá-lo para fora. Foi o caso do fornicário em Corinto, que esteva vivendo em fornicação com a mulher de seu pai. Ele estava vivendo assim, não foi algo temporário, e a Igreja não fazia nada. Daí então Paulo diz:

"Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro?Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai pois dentre vós a esse iníquo."1 Coríntios 5:11-13


Pelo que entendemos até aqui, se ele tivesse praticado o ato mas tivesse se arrependido e abandonado o ato, não seria expulso. Mas ele estava vivendo assim e a Igreja não fazia nada. Apesar disso, acredita-se que ele tenha voltado à Igreja em 2 Coríntios 2, quando parece ter se arrependido do ato e ter abandonado.

Em relação a julgar o que é ensinado para a Igreja, a Bíblia nos exorta CLARAMENTE que devemos julgar tudo. Inclusive as ditas "revelações":

"E falem dois ou três profetas, e os outros julguem." - 1 Coríntios 14:29

Paulo julgou e expôs até os nomes dos falsificadores da Palavra de Deus.

"Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé.E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar. - 1 Timóteo 1:19-20. 

Como podemos ver, Himeneu e Alexandre foram julgados por Paulo e declarados falsificadores da Palavra de Deus.


Conclusão: Esse "mimimi" de que não não podemos julgar está errado. Devemos julgar sim, mas segundo a reta justiça e não de forma hipócrita, como vemos em Mateus 7. Devemos julgar os que VIVEM em pecado. E, se os tais se arrependerem e abandonarem suas práticas, devemos recebê-los de volta. Devemos julgar as profecias, revelações e tudo o que nos é ensinado, como o apóstolo Paulo fez e ordenou que fizéssemos.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A graça nos ensinos de Jesus


Por Mateus de Souza

Uma vez vi uma pessoa dizer que a salvação pela Graça apenas foi pregada por Paulo. Tal pessoa dizia que Jesus pregava a Lei, como era pregada nas Escrituras Hebraicas. E citou a passagem do Mancebo Rico para corroborar seu argumento. Utilizou apenas dos primeiros versículos para essa defesa.
"E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho;Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo."Mateus 19:16-19"Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades.Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus.E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus."Mateus 19:20-24"Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se?E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível."Mateus 19:25-26


No primeiro instante parece que Jesus defendeu a ideia de salvação pela guarda dos mandamentos da Lei. Todavia, isto pode ser refutado, se analisarmos a passagem até o final da mesma.
A continuação:
Percebemos agora que o jovem dizia guardar os mandamentos, mas na verdade não os guardava, pois era avarento. Seu dinheiro era um "deus" pra ele, e assim desobedecia ao mandamento: "Não terás outros deuses diante de mim".
Até agora vimos que, no primeiro instante, Jesus disse que para ele entrar na Vida, deveria guardar os mandamentos. Vimos também que ele disse guardar, mas na verdade não os guardava.
Vamos para a terceira parte agora, que é a final, e veremos o desfecho.
Perguntaram ao Senhor quem poderia então se salvar. Por que ele não respondeu: "Aqueles que guardarem os mandamentos"? Porque o ser humano é incapaz de guardar todos os mandamentos e de ser salvo por eles. Após isso Jesus solta a máxima: "Aos homens isso é impossível", apenas confirmando a incapacidade humana. E depois diz: "Mas a Deus tudo é possível". Ou seja, para o ser humano salvar-se, Deus precisaria fazer alguma coisa, porque se dependesse do ser humano, nada seria feito. E Deus fez: deu seu Filho e Seu Sangue precioso para a remissão dos pecados de muitos.
Logo, concluímos que Jesus apenas disse no inicio que se deveria guardar os mandamentos para entrar na Vida para mostrar àquelas pessoas que isso é impossível. Após isso, mostrou-lhes a Graça, ao dizer que, embora seja impossível aos homens, mas para Deus é possível, e que Ele faria algo.
"Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para REMISSÃO dos pecados." - Mateus 26:28

Sobre o Autor: Mateus de Souza é cristão bereiano, calvinista por convicção, professor de música, violinista, membro da CCB, aluno do curso superior de Ciências Contábeis, autodidata em teologia e colaborador adjunto do blog Teologando.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Crente pode ouvir música do mundo?




Por André R. Fonseca

A pergunta é boa... crente pode ouvir música do mundo? Melhor ainda seria perguntar se crente pode vestir roupa do mundo, comer comida do mundo, ver televisão do mundo, filme do mundo etc.

Não sei por que a música foi tão estigmatizada nos círculos evangélicos. Talvez seja pela crendice de que Lúcifer era o regente do grande coral celestial... sei lá.

O fato é que, na maioria das vezes, o crente que ojeriza a música dita do mundo não vê problemas em assistir ao filme Homem de Ferro 3 no cinema; acompanhar aquela novela da Globo; comer angu à mineira, mesmo que ele também seja servido em despachos; ou, ainda, comprar roupa na C&A, que nada tem de teor cristão em sua declaração de missão empresarial.

Mas antes de prosseguir com este assunto, deixe-me apresentar o motivo de escrever sobre a música secular e os cristãos.

Segue, abaixo, o e-mail enviado há uma semana:

A Paz meu irmão.Fui inquirido por adolescente da minha igreja: "é pecado cantar música mundana?"Tudo que me foi ensinado diz que sim. Diz que se não for pecado é pelo menos errado!!!O que aprendi está correto???Obrigado por sua atenção e aguardo retorno.Guilherme CominiBelo Horizonte/MG

Para responder o contato do irmão Guilherme, preciso primeiramente fazer três comentários como introdução.

1 - É mais difícil responder diretamente uma questão da qual não tenho as proposições para argumentar, seja favoravelmente ou não. O que desejo que você entenda no momento é que ainda que tivéssemos a mesma opinião, poderíamos ter motivos diferentes para chegar à mesma conclusão. Contudo, eu poderia estar embasado na experiência pessoal, e o irmão poderia estar convencido biblicamente. Nesse caso, minha argumentação poderia ser facilmente questionada, porque está fundamentada naquilo que é subjetivo; enquanto a sua seria mais sólida e difícil de “atacar”. Porque não conheço os seus motivos para considerar errado ouvir música do mundo, minha resposta não visa questionar os seus argumentos. Nem conheço quais são os seus argumentos! Você apenas disse que foi ensinado que é errado e concorda com o que foi ensinado.

- Meu artigo é uma resposta para a pergunta: é errado o crente ouvir ou cantar música do mundo? E o que segue é minha opinião quanto a isso. Não se trata de uma resposta para minar as suas convicções com base nos seus argumentos, dogmas etc. Isso tudo tem a ver com a parte de conclusão do meu texto, e você entenderá perfeitamente o que estou falando. Vou repetir! Essa é minha opinião. E o que é bom pra mim, pode não ser bom pra você!

3 - Ainda que seja apenas minha opinião sobre o assunto, gostaria de enfatizar que é a opinião de quem já teve a música como profissão. Pianista profissional registrado na Ordem dos Músicos do Brasil e estudante de regência na Escola de Música Villa-Lobos com o maestro Alceo Bochino. Atuei na música secular como músico profissional e na igreja com regência coral, orquestra, pianista e líder de grupos de louvor. É, portanto a opinião de quem passou, no mínimo, algum tempo refletindo sobre a questão com algum comprometimento pessoal. Acho que isso faz diferença, uma vez que não será uma opinião descontextualizada.

Agora podemos partir para a argumentação da minha opinião. Acredito que preciso antes trabalhar o conceito de “música do mundo”. O que seria “música do mundo” ou a música secular em contraste com a música evangélica/gospel? A definição mais básica dessa diferença seria a motivação ou endereçamento da composição. A música evangélica/gospel tem sua composição motivada pela experiência religiosa do compositor e a música é dedicada a Deus, aborda uma temática relacionada a Deus. A música secular, ou “música do mundo” como geralmente é tratada no círculo cristão, é aquela música que não tem a motivação ou endereçamento religioso; embora algumas músicas seculares tenham uma temática religiosa. Nesse caso, acredito que a música secular com temática religiosa não deixa de ser considerada “música do mundo” porque ela não tem status litúrgico. E, para a comunidade cristã, não basta que a música tenha a temática religiosa, ou que a composição seja dedicada a Deus, a vida do intérprete deve também ser uma vida dedicada a Deus. A música e seu intérprete precisam ser “santos”, dedicados a Deus. Por isso não encontramos o intérprete cristão cantando “Jesus Cristo” de Roberto Carlos no culto, e também não encontramos Roberto Carlos sendo convidado para cantar como participação especial no Diante do Trono – ainda que ele seja o rei...

A música do mundo poderia ser dividida em duas grandes categorias: a música instrumental e a música com letra. Se o crente tem medo da música do mundo pela influência que ela pode ter sobre o ouvinte, a música instrumental é a menos “perigosa”. Apreciar a música instrumental é como apreciar qualquer outra arte, como as artes plásticas, por exemplo. Como a música é instrumental, seu valor é muito mais artístico, estético etc. É claro que a música instrumental tem uma história para contar, tem algum significado, havia alguma intenção na cabeça do seu compositor como motivação de composição da obra instrumental; mas a comunicação dessa mensagem é, de longe, inferior quando comparado com a música com letra. A música com letra tem uma mensagem muito mais explícita e completa.

Quando precisamos tratar da música com letra, portanto, devemos analisar a letra da música. Qual é a mensagem que o autor desejou transmitir com suas palavras? Acredito que aqui esteja a nossa maior preocupação. Se a música do mundo não é rejeitada pela comunidade cristã por causa da mensagem, então seria o quê? Se é simplesmente pela origem da música, então precisamos questionar o uso de nossas roupas, a comida que compramos etc. Seria um pouco de hipocrisia demonizar a música com base apenas em sua origem e não fazer o mesmo com todo o resto que cerca nossas vidas!

Não concordo, portanto, com o argumento que o crente não deve ouvir música do mundo por causa de sua origem: o mundo. O que mais não é do mundo? Será que seria só a música? Estou escrevendo este texto num netbook da HP com sistema operacional Linux. Tanto o hardware como o software têm origem “mundana”. Será que meu texto de resposta para você será descartado por causa da origem dos recursos utilizados para compor o texto?

É essa hipocrisia ou “ingenuidade” que os crentes querem viver que me revolta. Há falta de coerência no discurso e na conduta que professam ter. Com isso, acabam fazendo papelão.


– Não assista novela da Globo!
– Por quê?

– Porque tem adultério e traição.
– E na Bíblia não tem?
– Meus filhos não podem ler este livro porque ele tem histórias de guerra e violência.
– Eles só leem a Bíblia?
– Sim.
– E na Bíblia não tem histórias de guerra e violência?


Não estou dizendo que não existe uma diferença entre a guerra, a violência, a traição e o adultério entre a literatura secular e a Bíblia. E, sim, quero dizer que precisamos melhorar nossos argumentos para não parecermos idiotas quando tratamos desse assunto com os que não são crentes.

Portanto, a única explicação que acredito ser adequada para o porquê do crente ser “proibido” de ouvir música do mundo seria pela mensagem contida na letra da música. E aqui temos razões suficientes para dizer: prefiro não ouvir essa música.

Dizer que a música tem uma letra com uma mensagem conflitante com o meu credo e por isso “prefiro não ouvir” traz à nossa memória a Igreja em Corinto. Aquela Igreja vivia um drama parecido. Vamos ler primeiramente o texto.

“Agora vou tratar do problema dos alimentos oferecidos aos ídolos. Na verdade, como se diz, “todos nós temos conhecimento.” Porém esse tipo de conhecimento enche a pessoa de orgulho; mas o amor nos faz progredir na fé. A pessoa que pensa que sabe alguma coisa ainda não tem a sabedoria que precisa. Mas quem ama a Deus é conhecido por ele. Quanto a comer alimentos que tenham sido oferecidos aos ídolos, nós sabemos que um ídolo representa alguma coisa que realmente não existe. E sabemos que existe somente um Deus. Pois existem os que são chamados de “deuses”, tanto no céu como na terra, como também existem muitos “deuses” e muitos “senhores”. Porém para nós existe somente um Deus, o Pai e Criador de todas as coisas, para quem nós vivemos. E existe somente um Senhor, que é Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas foram criadas e por meio de quem nós existimos. Mas nem todos conhecem essa verdade. Existem pessoas tão acostumadas com os ídolos, que até agora comem desses alimentos, pensando que eles pertencem aos ídolos. A consciência dessas pessoas é fraca, e por isso elas se sentem impuras quando comem desses alimentos. Não é esta ou aquela comida que vai fazer com que Deus nos aceite. Nós não perderemos nada se não comermos e não ganharemos nada se comermos desse alimento. Mas tenham cuidado para que essa liberdade de vocês não faça com que os fracos na fé caiam em pecado. Porque, se uma pessoa que tem a consciência fraca neste assunto vir você, que tem “conhecimento”, comendo alimentos no templo de um ídolo, será que essa pessoa não vai querer também comer alimentos oferecidos aos ídolos? Assim este cristão fraco, este seu irmão por quem Cristo morreu, vai se perder por causa do “conhecimento” que você tem. Desse modo, pecando contra o seu irmão e ferindo a consciência dele, você estará pecando contra Cristo. Portanto, se o alimento faz com que o meu irmão peque, nunca mais vou comer carne a fim de que eu não seja a causa do pecado dele.” I Coríntios 8:1-13

Havia na cidade de Corinto muitos templos pagãos. Carne era oferecida como oferta a esses deuses nos templos, e a sobra era vendida pelos sacerdotes no mercado de carnes por um preço mais barato. Os membros mais pobres daquela comunidade cristã só podiam comprar a carne com o preço mais acessível, mas a possibilidade de estar comprando da carne que fora oferecida aos ídolos era grande. O que fazer? O conselho de Paulo foi: vai no açougue, compre a carne e não pergunte nada por questão de consciência. Se um amigo oferecer um banquete e não disser a procedência da carne, coma à vontade. A verdade é que nada há na carne que seja “demoníaca” até mesmo porque sabemos que ídolos não são nada, e foi Deus quem criou todas as coisas. Não se ganha ou se perde nada comendo ou não comendo dessa carne. Mas, por uma questão de consciência, para não ferir a consciência do irmão fraco, não coma da carne oferecida a ídolos.

Mais adiante no texto da carta aos coríntios, quando volta a falar do mesmo assunto, Paulo acrescenta: “Alguns dizem assim: “Podemos fazer tudo o que queremos.” Sim, mas nem tudo é bom. “Podemos fazer tudo o que queremos”, mas nem tudo é útil.” 1 Coríntios 10:23

Esse sempre foi o meu texto norteador nesta questão. Foi assim que ensinei minha filha a julgar o que ela deveria ou não ouvir. Ela, às vezes, me pergunta se pode ou não ouvir esse ou aquele cantor, ou essa e aquela música. Minha resposta é: julgue se o que você está ouvindo é útil. Você pode ouvir de tudo, mas nem tudo convém!

Guilherme, há músicas do mundo que têm valor histórico e moral, veja a importância e como você pode exercitar sua cidadania refletindo sobre as músicas escritas durante a ditadura. Faz parte de nossa história! Posso citar Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré e muitos outros. Há músicas que louvam o valor da boa amizade, ou do amor do filho pelo pai. Podemos ouvir de tudo, mas nem tudo convém. Lembra? Se a música é um louvor ao amor de um homem por uma mulher, à fidelidade e ao companheirismo, ótimo! Por que não ouvir? Não foi esse o desejo de Deus ao criar a mulher para o homem? Contudo, se a música é um louvor ao amor de um casal em adultério, prefiro não ouvir.

Jesus disse que o que faz mal não é o que entra, mas o que sai da boca. A boca fala do que o coração está cheio. A coisa toda tem muito mais a ver com que está dentro de nós do que aquilo que está fora, no mundo. Pois onde estiverem as nossas riquezas, aí estará o nosso coração. Se eu valorizo uma música que louva o adultério, alguma coisa está errada com meu coração, com a minha conversão. Se valorizo uma canção que louva o valor de uma amizade, esse olhar de valor que tenho sobre a canção é dirigido por um coração segundo Deus. Se não fosse assim, não poderíamos julgar os valores morais presentes no mundo, o que me faz lembrar da abertura de Paulo em sua carta aos Romanos: "Os gentios cumprem a lei de Deus gravada em seus corações" Romanos 2:15. Tudo aquilo que Deus criou e chamou de bom não está somente dentro das igrejas e na mão dos crentes para fazer. A graça comum de Deus estende-se sobre toda a criação! O que podemos encontrar de belo no mundo está lá, presente e pulsante, por Sua graça e para Seu louvor! 

Por isso ouso dizer: nem toda música do mundo é demoníaca, e nem toda música gospel é santa. Se o problema da música do mundo está na mensagem que sua letra traz, digo que há muitas músicas gospel com letras que fazem muito mais mal ao crente do que muitas músicas do mundo. Há muita música gospel com letra que traz uma mensagem altamente destrutiva para a verdadeira fé. São músicas com mensagens antropocêntricas que desvalorizam Deus e supervalorizam o homem, fazendo Deus de servo e o servo de senhor. Músicas cantadas todas as noites nas igrejas que negam a trindade, ou incentivam as pessoas a amarem a Deus para barganhar por bençãos.

Guilherme, não encontro uma assertiva bíblica, clara e inquestionável, de que o crente esteja proibido ou deveria ser proibido de ouvir música do mundo. Mas, já deixei claro que, apesar de poder ouvir de tudo, nem tudo convém. Isso deveria incluir também o repertório gospel. Tem música gospel que prefiro não ouvir porque é contra minha fé! Você também deve fazer esse tipo de seleção no seu repertório gospel, ou será que você canta tudo que rola nas rádios?

Ainda dentro do discurso de Paulo aos coríntios sobre carne sacrificada a ídolos, ele diz que nossa liberdade não pode ser usada para ferir a consciência de outros irmãos que acreditam ser errado comer daquela carne. Ou seja, se minha comunidade cristã acredita que é errado ouvir música do mundo, não ouvirei de forma que provoque ou “teste” a fé deles. Não posso ser motivo de escândalo para eles.

Quem acha que pode ouvir uma música ou outra não pode fazer de forma a agredir a fé do irmão, e quem acha que deve excluir essas músicas de seu repertório para o benefício de sua consagração não deveria criticar aquele que ouve por diversão.

O que pode ser bom para mim, pode não ser bom para outras pessoas. Ainda que eu possa curtir algumas músicas do mundo dentro daquele padrão mencionado anteriormente, músicas que não ferem necessariamente a minha fé e meus valores cristãos; algumas pessoas, no entanto, não podem ouvir nem essas músicas porque elas se tornarão um passo para o desvio. São como alcoólatras que não podem nem comer um bombom de licor para não serem tentados a voltar ao alcoolismo. Se há uma ligação forte demais da pessoa com a música do mundo e as velhas práticas de sua antiga natureza, então é melhor que essa pessoa não escute música nenhuma do mundo. Isso me faz lembrar daquela personagem da Paula Burlamaqui na novela Avenida Brasil da Globo. Crentona, cheia daquelas idiossincrasias, mas não podia ouvir uma determinada música que ela logo perdia a linha. Se esse é o caso, o crente que tem a música do mundo como um ponto fraco, não deveria ouvir música alguma. Mas essa é uma escolha pessoal, faz parte de sua consagração pessoal e não deveria ser imposta a outras pessoas como uma regra bíblica, porque ela não é bíblica! Tem crente que nem precisa de Playboy para pecar, basta uma revista da Avon ou Demillus... 

Entende que o problema nem sempre está na coisa, mas na concupiscência de cada coração? Mais uma vez posso aplicar um conselho de Paulo: “Quem dá mais valor a certo dia faz isso para honrar o Senhor. E também quem come de tudo faz isso para honrar o Senhor, pois agradece a Deus o alimento. E quem evita comer certas coisas faz isso para honrar o Senhor e dá graças a Deus”Romanos 14:6. Se essa pessoa evita ouvir essas músicas, ainda que elas não tenham nada demais, faz pelo Senhor. E isso é bom!

Há, também, aqueles que fazem do cantor um ídolo. E nesse caso pode não ser apenas o cantor do mundo, mas o cantor gospel também. Falem mal da minha mãe, mas não falem da Ana Paula Valadão! Escola Bíblica Dominical está vazia enquanto o show do Fernandinho está lotadíssimo. Na minha opinião, essa proibição da igreja, dizendo que crente não pode ouvir música do mundo, é uma tentativa fraca de evitar que os crentes se envolvam com a adoração desses ídolos do mundo musical. Mas, idólatra é o coração humano sem Cristo! Na falta de ídolos do mundo, porque somos proibidos do acesso a eles, criamos nossos próprios ídolos na igreja. E como tem coração sem Cristo dentro de nossas igrejas...

Vou parafrasear Paulo como resumo da minha opinião: posso ouvir todo tipo de música, mas nem toda música é útil. Examino todas as músicas e fico só com o que é bom. Mas se o irmão prefere não ouvir das músicas do mundo porque faz parte de sua consagração pessoal e o irmão faz isso pelo Senhor, não posso criticá-lo! Louvado seja o Senhor! 1 Coríntios 10:23, 1 Tessalonicenses 5:21 e Romanos 14:6.

terça-feira, 4 de março de 2014

O que é cair da graça?




Por Douglas Pereira da  Silva

Um dos conceitos mais aberrantes - dentre outros - na cultura oral dos ensinamentos extrabíblicos existentes na denominação deste humilde autor, é o chamado cair da graça.

Argumentam os imprudentes e levianos defensores deste ensinamento que, cair da graça, é o ato de cometer o "pecado de morte" - pecado este que não existe, conforme provamos nas Escrituras Sagradas, aqui, com o artigo "Afinal, o que é pecado de morte?".

Acredito que esta heresia, mais uma vez, é fruto da irresponsabilidade e negligencia dos ministros que pregam esta aberração, em função de não examinar as Escrituras (Mateus 22.29) implicando assim, no défice em manejar bem a palavra da verdade (II Timóteo 2.15).

O que é cair da graça afinal? Bem, para respondermos a pergunta, vamos analisar o texto Bíblico, o qual deve ser o mesmo, que foi indevidamente aplicado a este desvario.

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, E caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério". (Hebreus 6:4-6)

Para entender o significado desta advertência tão severa, será necessário compreendermos o contexto pelo qual foi escrito a carta aos Hebreus.

A epístola aos Hebreus, foi escrita a fim de provar aos cristãos judeus, isto é, àqueles que haviam abandonado a religião e os ritos do judaísmo, para se converterem a fé cristã, que Jesus era maior do que tudo o que antes viera; sendo as coisas anteriores apenas “sombra” - ou arquétipos - dos bens que haveriam de se materializarem em Cristo (Hebreus 10.1-3). Tudo o que ficara para trás não deveria ser “retomado” sob pena de que o sacrifício de Jesus tivesse sido em vão, pisando assim, no sangue de Jesus.

A advertência de Hebreus 6.4-6, foi direcionada aos cristãos - judeus que estavam desistindo da fé na Graça do Senhor Jesus,  e retornando aos ritos, práticas, crenças e legalismos do judaísmo.

Portanto, este cair não é sinônimo de uma falta grave ou pecado moral. Pois, se assim fosse, todos nós estaríamos perdidos (Romanos 3.23). 

O cair aqui não pode em hipótese alguma, significar pecado moral ou alguma falta grave, pois se não, as Escrituras estaria contradizendo muitos pontos; vejamos alguns:

"Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós". (I João 1.8)

"Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós". (I João 1.10)

"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça". (I João 1.9) 

"Porque sete vezes cairá o justo, e se levantará; mas os ímpios tropeçarão no mal". (Provérbios 24.16)

"Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no seu caminho. Ainda que caia, não ficará prostrado, pois o Senhor o sustém com a sua mão". (Salmos 37.23-24)

"E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra". (II Crônicas 7.14)

Creio que os versos mencionados, sejam o suficiente para demonstrar que o significado de cair na epístola aos Hebreus não é o mesmo que pecar!

O significado de cair aqui, é o mesmo cair dos cristãos da Galácia:

"Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído". (Gálatas 5.4)

O que se está falando neste texto de Hebreus é o pecado de apostasia! Os cristãos hebreus estavam abandonando a sua fé em Jesus Cristo, e voltando aos velhos ritos do judaísmo (sacrifícios, circuncisões, observâncias à lei de Moisés, etc.), ou seja, eles estavam voltando ao antigo sistema de culto, o mesmo sistema que havia assassinado o nosso Senhor Jesus Cristo. Os hebreus estavam rejeitando o único sacrifício capaz de purificar dos pecados, pelos sacrifícios de animais! A epístola aos Hebreus adverte que: “não há outro sacrifício” (Hebreus 10.26), “a salvação é pela fé e não mais pelas obras da lei”, “Jesus é muito mais do que a arca da aliança”, “Jesus é muito mais que os sacerdotes do templo”...; de modo que voltando ao antigo sistema, eles estavam caindo da graça. Este era o perigo daquela época: trocar o sangue precioso e imaculado do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, pelo sangue de bodes e carneiros.

Pelo contexto apresentado nesta analise, está doutrina também se aplica para todos nós, muito embora não sejamos judeus; e sabe como? Quando por um mísero orgulho, presunção ou sentimento de “santidade”, tentamos alcançar a salvação por méritos próprios praticando boas obras, quando na verdade a salvação é dom gratuito de Deus mediante a fé no sacrifício da cruz, nunca é pelas boas obras (Efésios 2:8-9). A salvação é resultado da obra de Cristo, e não das boas obras do crente, isto é, o crente prática boas obras para demonstrar a sua salvação.

Este era o cair dos cristãos - judeus, era o de, justificar-se dos seus pecados mediante as obras da lei, com seus méritos próprios!

Portanto, Cair da Graça é: colocar liturgias, dogmas, preceitos ou conceitos eclesiásticos; doutrinas, tradições, costumes, e ou práticas da lei como fundamentais para a salvação; é prevaricar com a Graça.

Se assim não fora, não teria o apóstolo Paulo assim proferido:


“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.” (Gálatas 5.4)


Ora, daqui pra frente, sempre que alguém disser para você que um irmão "caiu" da graça, saiba o seguinte:

Cai quem deixa a fé e a consciência da Graça de Deus; não quem em fraqueza busca a misericórdia pedindo perdão pelos seus pecados.


Como assim, "Não toqueis no ungido do Senhor..."?!



Por Augustus Nicodemus Lopes

Há várias passagens na Bíblia onde aparecem expressões iguais ou semelhantes a estas do título desta postagem:

A ninguém permitiu que os oprimisse; antes, por amor deles, repreendeu a reis, dizendo: Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas (1Cr 16:21-22; cf. Sl 105:15).

Todavia, a passagem mais conhecida é aquela em que Davi, sendo pressionado pelos seus homens para aproveitar a oportunidade de matar Saul na caverna, respondeu: "O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele [Saul], pois é o ungido do Senhor" (1Sm 24:6).

Noutra ocasião, Davi impediu com o mesmo argumento que Abisai, seu homem de confiança, matasse Saul, que dormia tranquilamente ao relento: "Não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor e fique inocente?" (1Sm 26:9). Davi de tal forma respeitava Saul, como ungido do Senhor, que não perdoou o homem que o matou: “Como não temeste estender a mão para matares o ungido do Senhor?” (2Sm 1:14).

Esta relutância de Davi em matar Saul por ser ele o ungido do Senhor tem sido interpretado por muitos evangélicos como um princípio bíblico referente aos pastores e líderes a ser observado em nossos dias, nas igrejas cristãs. Para eles, uma vez que os pastores, bispos e apóstolos são os ungidos do Senhor, não se pode levantar a mão contra eles, isto é, não se pode acusa-los, contraditá-los, questioná-los, criticá-los e muito menos mover-se qualquer ação contrária a eles. A unção do Senhor funcionaria como uma espécie de proteção e imunidade dada por Deus aos seus ungidos. Ir contra eles seria ir contra o próprio Deus.

Mas, será que é isto mesmo que a Bíblia ensina?

A expressão “ungido do Senhor” usada na Bíblia em referência aos reis de Israel se deve ao fato de que os mesmos eram oficialmente escolhidos e designados por Deus para ocupar o cargo mediante a unção feita por um juiz ou profeta. Na ocasião, era derramado óleo sobre sua cabeça para separá-lo para o cargo. Foi o que Samuel fez com Saul (1Sam 10:1) e depois com Davi (1Sam 16:13).

A razão pela qual Davi não queria matar Saul era porque reconhecia que ele, mesmo de forma indigna, ocupava um cargo designado por Deus. Davi não queria ser culpado de matar aquele que havia recebido a unção real.

Mas, o que não se pode ignorar é que este respeito pela vida do rei não impediu Davi de confrontar Saul e acusá-lo de injustiça e perversidade em persegui-lo sem causa (1Sam 24:15). Davi não iria matá-lo, mas invocou a Deus como juiz contra Saul, diante de todo o exército de Israel, e pediu abertamente a Deus que castigasse Saul, vingando a ele, Davi (1Sam 24:12). Davi também dizia a seus aliados que a hora de Saul estava por chegar, quando o próprio Deus haveria de matá-lo por seus pecados (1Sam 26:9-10).

O Salmo 18 é atribuído a Davi, que o teria composto “no dia em que o Senhor o livrou de todos os seus inimigos e das mãos de Saul”. Não podemos ter plena certeza da veracidade deste cabeçalho, mas existe a grande possibilidade de que reflita o exato momento histórico em que foi composto. Sendo assim, o que vemos é Davi compondo um salmo de gratidão a Deus por tê-lo livrado do “homem violento” (Sl 18:48), por ter tomado vingança dos que o perseguiam (Sl 18:47).

Em resumo, Davi não queria ser aquele que haveria de matar o ímpio rei Saul pelo fato do mesmo ter sido ungido com óleo pelo profeta Samuel para ser rei de Israel. Isto, todavia, não impediu Davi de enfrentá-lo, confrontá-lo, invocar o juízo e a vingança de Deus contra ele, e entregá-lo nas mãos do Senhor para que ao seu tempo o castigasse devidamente por seus pecados.

O que não entendo é como, então, alguém pode tomar a história de Davi se recusando a matar Saul, por ser o ungido do Senhor, como base para este estranho conceito de que não se pode questionar, confrontar, contraditar, discordar e mesmo enfrentar com firmeza pessoas que ocupam posição de autoridade nas igrejas quando os mesmos se tornam repreensíveis na doutrina e na prática.

Não há dúvida que nossos líderes espirituais merecem todo nosso respeito e confiança, e que devemos acatar a autoridade deles – enquanto, é claro, eles estiverem submissos à Palavra de Deus, pregando a verdade e andando de maneira digna, honesta e verdadeira. 

Quando se tornam repreensíveis, devem ser corrigidos e admoestados. Paulo orienta Timóteo da seguinte maneira, no caso de presbíteros (bispos/pastores) que errarem:

"Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam" (1Tm 5:19-20).

Os “que vivem no pecado”, pelo contexto, é uma referência aos presbíteros mencionados no versículo anterior. Os mesmos devem ser repreendidos publicamente.

Mas, o que impressiona mesmo é a seguinte constatação. Nunca os apóstolos de Jesus Cristo apelaram para a “imunidade da unção” quando foram acusados, perseguidos e vilipendiados pelos próprios crentes. O melhor exemplo é o do próprio apóstolo Paulo, ungido por Deus para ser apóstolo dos gentios. Quantos sofrimentos ele não passou às mãos dos crentes da igreja de Corinto, seus próprios filhos na fé! Reproduzo apenas uma passagem de sua primeira carta a eles, onde ele revela toda a ironia, veneno, maldade e sarcasmo com que os coríntios o tratavam:

"Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a reinar convosco.
Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens.
Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo; nós, fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e nós, desprezíveis.
Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.
Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados. Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus. Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores" (1Cor 4:8-17).

Por que é que eu não encontro nesta queixa de Paulo a repreensão, “como vocês ousam se levantar contra o ungido do Senhor?” 

Homens de Deus, os verdadeiros ungidos por Ele para o trabalho pastoral, não respondem às discordâncias, críticas e questionamentos calando a boca das ovelhas com “não me toque que sou ungido do Senhor,” mas com trabalho, argumentos, verdade e sinceridade.

“Não toque no ungido do Senhor” é apelação de quem não tem nem argumento e nem exemplo para dar como resposta.