
Por Douglas Pereira da Silva
d) A palavra Holocausto sempre é usada no Antigo Testamento para descrever um sacrifício de sangue com oferta queimada. Confiram Gênesis 8.20; 22.7; Êxodo 29.18, Levítico 1.3; 1.17; 6.9; Juízes 13.16; I Samuel 7.9; 13.12; I Crônicas 16.40 etc. (obs.: são muitas passagens, todavia, para ilustrar como exemplo citarei apenas estas);
c) Juízes 11.31 sugere claramente que a pessoa que primeiro saísse da casa de Jefté seria dedicada ao Senhor “em holocausto”;
d) A reação de Jefté em Juízes 11.35 seria exagerada se a questão envolvida fosse apenas a dedicação de sua filha em celibato ao Senhor;
e) Não faria sentido chorar “a sua virgindade” por “dois meses” (Juízes 11.38) já que a moça continuaria virgem e viva;
f) Se a filha de Jefté fosse apenas dedicada à perpétua virgindade, não necessitaria de dois meses para chorá-la, pois, teria a vida inteira para fazê-lo;
g) O próprio texto declara que Jefté fez com sua filha “segundo o voto por ele proferido” (Juízes 11.39);
h) No versículo 40, diz que as israelitas saiam de ano em ano para cantar em memória da filha de Jefté. Ora, ninguém canta em memória de alguém, se este alguém estiver vivo!
i) Os heróis da fé mencionados em Hebreus 11 não eram pessoas que nunca pecaram, e sim pessoas que alcançaram a vitória sobre os seus pecados (ver, por exemplo, Êxodo 2.11-15; Juízes 13.16; II Samuel 11.12).
ADVERTÊNCIA: As opiniões constantes no presente artigo, e as especulações teológicas existentes da passagem de Juízes 11.29-40, não refletem em hipótese alguma, matéria ou doutrina de Fé. Todavia, serve apenas como um aprendizado, e como curiosidade Bíblica e lúdica, para ampliarmos a nossa percepção intelectual. Seja qual for a visão teológica defendida, não traz quaisquer prejuízos para o duplo propósito das Escrituras Sagradas, e para a Fé Cristã.
Analise
Exegética de Juízes 11.29-40
Esta
passagem é mais um texto de difícil compreensão das Escrituras
Sagradas, pois inconscientemente, ao interpretarmos, temos a dificuldade de
despirmos de todo o sistema e conjunto de crenças doutrinárias que adquirimos
ao longo da nossa caminhada cristã.
Eis
o maior desafio do exegeta Bíblico: é o de interpretar somente o que o texto
sagrado diz, sem interferências doutrinárias, e sem auxílio da
Teologia Sistemática.
Para
ser fiel e extrair a interpretação fidedigna do texto sagrado, o exegeta deve se
abster de pressuposições e preconceitos que se adquiri com os credos
de Fé das denominações evangélicas, isto é, deve-se fazer perguntas ao próprio
texto Bíblico e extrair as respectivas respostas do mesmo!
Ao
discutirmos tal passagem, o irmão Alceu Figueiredo, que é um
teólogo autodidata e exímio estudioso das
Escrituras, apresentou a interpretação tradicional, aceita pela maioria
das Igrejas Cristãs. Ele disse o seguinte:
"Jefté não sacrificou sua filha, como muitos acreditam, atribuindo o fato de ter morado com os Cananeus e adotado essa prática de sacrifício humano. Em Israel jamais existiu tal prática e Deus proibiu terminantemente que se fizesse sacrifícios humanos (Dt 18:9-12); logo Ele não iria se alegrar com o que proibiu. O voto de Jefté foi condenar sua filha a uma virgindade perpétua, e sendo ela filha única (Jz 11:33), isto significava ficar sem descendência. Veja bem que ele votou que ofereceria ao Senhor o que primeiro saísse de sua casa, logo não esperava sair um animal de dentro de casa. Notemos que a filha de Jefte chorou a sua virgindade, e não que iria morrer (Jz 11:37), e depois do voto ser cumprido ela manteve sua virgindade (Jz 11:39); finalmente de ano em ano ela recebia visitas de suas companheiras que viam lamentar [elogiá-la em algumas versões] (Jz 11:40). Ela foi servir no santuário como algumas mulheres faziam, no serviço de manutenção e provisão, e foi daí, que a cristandade tirou o modelo das “virgens enclausuradas.”
O Biólogo e
entusiasta colecionador de Bíblias de Estudo, Márcio José Sérgio Ermida, sem
titubear, foi mais enfático ainda em sua opinião:
"A Bíblia não se contradiz. E, na dúvida, permanece a doutrina oficial. Se Deus abominava (eu disse abominava) as nações cananeias por causa de seus pecados, e abominava seus pecados, por que de repente vai aceitar que um filho seu cometa uma abominação por voto? Fico com a doutrina que dura até hoje " Não matarás..."
Todavia,
este simplório blogueiro acredita que Jefté sacrificou –
literalmente – a sua filha!
Para
tanto, elencarei os motivos para a interpretação literal, o qual é facilmente
extraída do texto aplicando minuciosamente as regras da Exegese:
a)
Na época dos Juízes de Israel, cada um “fazia o que bem entendiam”, pois não
tinham uma liderança centralizadora para guia-los, tal como fizera muitos anos
antes Moisés e Josué, razão pela qual não obedeceram a voz do Senhor;
casaram-se com as mulheres dos heteus, dos heveus, dos jerbuseus, dos cananeus
e de todos os povos ao redor, dos quais o Senhor ordenará que não se casassem. (Juízes 2.11-3.6);
b)
Certamente, Jefté estava familiarizado com as práticas da cultura e da religião
pagã destes povos, devido a mistura de raças que houve na época por causa
dos casamentos mistos, conforme explicamos anteriormente no item (a);
c) O
texto de Juízes 11.29-40, não é um texto Normativo, mas sim Narrativo. No mesmo
não está ensinando que Deus aprovou o voto de Jefté, e muito menos que devemos
fazer sacrifícios humanos, mas está apenas narrando a loucura que este juiz
praticou. Como exemplo de texto narrativo desta mesma categoria, citamos Gênesis
12.10-20, onde narra o episódio da mentira de Abraão – seu nome ainda era
Abrão. Observem que o texto não dá margem, para a formação de doutrina, isto é,
não há nada de Normativo ali. Muito menos, não vemos a pessoa de Deus sendo
conivente e ainda aprovando a mentira de Abrão; mais ainda, tal como a passagem
que estamos analisando, não temos o relato de alguma ação interventora de Deus repreendendo e impedindo Abraão para não mentir, Há outros textos Narrativos no Antigo
Testamento - inúmeros na verdade - que o leitor poderá conferir posteriormente, porém, vamos nos limitar apenas neste único
exemplo para a brevidade do presente artigo.
d) A palavra Holocausto sempre é usada no Antigo Testamento para descrever um sacrifício de sangue com oferta queimada. Confiram Gênesis 8.20; 22.7; Êxodo 29.18, Levítico 1.3; 1.17; 6.9; Juízes 13.16; I Samuel 7.9; 13.12; I Crônicas 16.40 etc. (obs.: são muitas passagens, todavia, para ilustrar como exemplo citarei apenas estas);
e) O
texto diz que a filha de Jefté foi chorar a sua virgindade, pois ainda não
havia sido possuída por nenhum homem (v.37), todavia, esta informação é vaga
para concluirmos que o sacrifício consistiu apenas em manter-se virgem por toda
vida, e por quê? Porque a palavra Holocausto aparece
no versículo 31, e conforme explicamos no item (d) sempre foi usada no
Antigo Testamento, para denotar derramamento de sangue com oferta queimada,
isto é, sacrifício - literalmente; se conferirmos todas as passagens Bíblicas
no Antigo Testamento em que a palavra Holocausto é empregada, constataremos
este fato!
Concluindo...
Será
que o autor do livro de Juízes se equivocou, escrevendo a palavra errada - no
caso Holocausto - para narrar este episódio?
Ou
ainda, será que é um erro cometido por algum copista da antiguidade, ao reproduzir o livro copiando do Original?
Em
todo caso, não há como provar estas duas possibilidades!
Aos
que conhecem o idioma hebraico - a língua com que foi originalmente escrito o
Antigo Testamento - e desejam se aprofundar no assunto em pauta, o versículo 31
de Juízes 11 está escrito da seguinte forma (a sentença "oferecer em holocausto" esta destacado em vermelho):
מה, מחוץ לדלתות של הבית שלי לפגוש אותי, כשאני חוזר בני עמון בשלום, זה יהיה יהוה, ולהציע אותו לעולה.
Teólogos
de todos os segmentos afirmam que, de fato, Jefté não só votou que sacrificaria
um ser humano como cumpriu o que prometeu. A Bíblia de Estudo de Genebra, por
exemplo, faz o seguinte comentário a respeito da passagem em questão:
"Jefté derrotou os amonitas, mas, durante a batalha, fez um voto precipitado ao Senhor, com base no qual foi obrigado a sacrificar sua filha querida como holocausto. Ao contrário dos deuses pagãos, Deus não deveria ser adorado com sacrifícios humanos (Dt 32.17; Sl 106.37-38). O voto imprudente de Jefté mostra como lhe faltava fé para liderar; sem essa fé, sua casa não seria estabelecida".
Dentre
os muitos colaboradores responsáveis pelos comentários da Bíblia de Estudo de
Genebra, destacam-se homens como Mark Futato (Reformed Theological Seminary),
R. Laird Harris (Covenant Theological Seminary), Meredith Kline (Gordon-Conwell
Theological Seminary), Tremper Longman III (Westmont College), Raymond C.
Ortlund Jr. (First Presbyterian Church of Augusta), Richard L. Pratt Jr.
(Reformed Theological Seminary) e Bruce K. Waltke (Reformed Theological
Seminary). Não sei exatamente quem escreveu os comentários do livro de Juízes.
No entanto, sei que tal interpretação passou pelo crivo do editor responsável
pelo Antigo Testamento, o Dr. Bruce K. Waltke, e do editor-geral, o Dr. Richard
L. Pratt Jr.
Embora o sacrifício humano fosse proibido aos israelitas, não surpreende que um semi-cananeu tomasse tão estranha atitude. Caso paralelo é o do rei de Moabe, que sacrificou o seu filho primogênito (II Reis 3.27). Compare-se ainda, na mitologia grega, o sacrifício de Ifigênia e Policena. A nobreza de caráter manifestada pela filha de Jefté fez dela uma das heroínas mais célebres do mundo antigo.
Temos ainda, o caso do rei Manasses de Judá que queimou a seu filho como oferta de sacrifício em adoração as deuses pagãos (II Reis 21.6).
Autores como Josefo, Lutero, Matthew Henry, Jemieson-Fausset- Brawn, A. C. Hervey, H. A. Hofner Jr., E. J. Hamlin, etc., argumentam que a linguagem do próprio texto não deixa dúvidas de que Jefté realmente ofereceu sua filha em sacrifício. A favor dessa posição, temos - ainda - as seguintes observações:
a) Jefté certamente estava familiarizado com a prática de sacrifícios humanos das nações circunvizinhas (ver Juízes 11.1-3, 24); por isso foi fortemente influenciado por práticas pagãs de sua época;
b) O fato de haver sido usado pelo “Espírito do Senhor” na vitória sobre os amonitas não o tornou infalível em suas demais decisões;
b) O fato de haver sido usado pelo “Espírito do Senhor” na vitória sobre os amonitas não o tornou infalível em suas demais decisões;
c) Juízes 11.31 sugere claramente que a pessoa que primeiro saísse da casa de Jefté seria dedicada ao Senhor “em holocausto”;
d) A reação de Jefté em Juízes 11.35 seria exagerada se a questão envolvida fosse apenas a dedicação de sua filha em celibato ao Senhor;
e) Não faria sentido chorar “a sua virgindade” por “dois meses” (Juízes 11.38) já que a moça continuaria virgem e viva;
f) Se a filha de Jefté fosse apenas dedicada à perpétua virgindade, não necessitaria de dois meses para chorá-la, pois, teria a vida inteira para fazê-lo;
g) O próprio texto declara que Jefté fez com sua filha “segundo o voto por ele proferido” (Juízes 11.39);
h) No versículo 40, diz que as israelitas saiam de ano em ano para cantar em memória da filha de Jefté. Ora, ninguém canta em memória de alguém, se este alguém estiver vivo!
i) Os heróis da fé mencionados em Hebreus 11 não eram pessoas que nunca pecaram, e sim pessoas que alcançaram a vitória sobre os seus pecados (ver, por exemplo, Êxodo 2.11-15; Juízes 13.16; II Samuel 11.12).
Em todo o caso, o professor e mestre exegeta da
Faculdade Teológica Batista de Osasco, teólogo com graduação especializada nos
idiomas Hebraico e Grego pela Universidade de São Paulo, Edson da Mata, que
também acredita em um sacrifício literal, fez a
importante observação:
"Seja como for, a passagem de Jefté nos traz uma importante lição: cuidarmos de nossas palavras a fim de se evitar os diversos erros que cometemos, quando falamos sem pensar, sem medir, sem planejar. Estou certo que Jefté nem imaginava que poderia ser a sua filha a primeira a aparecer. Ele fez um voto de tolo, não cuidou em ser tardio no falar, tal como o apóstolo Tiago nos ensina em sua epístola. Creio ser esta, a maior lição que podemos extrair deste trágico episódio".
Portanto,
conforme todas as observações listadas, este modesto aprendiz
de teologia, acredita - sinceramente - que Jefté tenha cometido a loucura de
sacrificar a sua filha, isto é, o mesmo fez um voto de tolo; sequer ele pensou
que poderia ter sido sua própria filha que sairia ao seu encontro - tal como o
professor Edison pontuou em sua opinião – votando impensadamente.
Agora
é com vocês, queridos e diletos leitores do Teologando; toda essa questão permanece aberta à discussão e até hoje não se conseguiu chegar a um denominador comum.
Qual
é a sua opinião à respeito?
ADVERTÊNCIA: As opiniões constantes no presente artigo, e as especulações teológicas existentes da passagem de Juízes 11.29-40, não refletem em hipótese alguma, matéria ou doutrina de Fé. Todavia, serve apenas como um aprendizado, e como curiosidade Bíblica e lúdica, para ampliarmos a nossa percepção intelectual. Seja qual for a visão teológica defendida, não traz quaisquer prejuízos para o duplo propósito das Escrituras Sagradas, e para a Fé Cristã.


